Um Rio, uma Barragem. Recolha de memórias e registos de vida no Alqueva

Passada uma década da existência da barragem de Alqueva, questionamos: de que forma as comunidades do sul vivem esta nova paisagem e que consequências estão a ser sentidas na vida social das comunidades ribeirinhas? O que permaneceu e o que mudou? Quais as memórias associadas ao rio Guadiana? E o que esperam estas comunidades do futuro? Que novos valores atribuem à terra e à agua? E como é visto Alqueva através dos olhares exteriores, isto é, de quem o visita, ou de quem para ele veio viver, tirando dele partido e sustento?

Memória descritiva |

A presente memória descritiva versa sobre o trabalho científico produzido, enquanto colaborador no âmbito dos projectos de investigação interna do Museu da Luz, tutelado pela Empresa de Desenvolvimento de Infra-estruturas de Alqueva, no período compreendido entre Setembro e Dezembro de 2011, com a finalidade de incrementar o arquivo audiovisual do Museu da Luz.

Sumário |

Na sequência do trabalho desenvolvido pelo Museu da Luz,  e no âmbito de um programa de investigação interna em torno do território e área de influência do Alqueva, o projecto intitulado Um Rio e uma Barragem: Recolha de memórias e registos de vida no Alqueva surge como uma tentativa de representação actual da estrutura social e cultural das comunidades ribeirinhas.

Através da cartografia de gentes e lugares, emergem as leituras de quem ocupa este território, traduzindo uma visão integrada acerca das transformações e da transversalidade das diversas componentes que decorrem do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva.

 

Palavras-chave | Usos sociais da água; transformação na paisagem; território; comunidades ribeirinhas; memória colectiva; histórias de vida; construção da identidade; práticas da cultura; lugar de pertença.

Área de intervenção |

O Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva tem influência directa nos concelhos de Moura, Portel, Mourão, Reguengos de Monsaraz e Alandroal.

Numa perspectiva alargada do território propõe-se aqui uma análise ao nível macro da zona de influência do Grande Lago, através do mapeamento e abordagem a algumas das Aldeias Ribeirinhas.

Observar e explorar o nível de entendimento de determinada comunidade sobre o empreendimento e o modo como estes questionam e equacionam alguns dos objectivos veiculados pela construção da Barragem do Alqueva, elemento central deste empreendimento, constitui-se como um dos vectores da pesquisa. Nesta fase, entendida como exploratória, serão abordados os concelhos de Mourão, freguesia da Luz, Moura, freguesia da Estrela e Portel, Barragem do Alqueva e freguesia da Amieira.

Objecto de recolha |

As primeiras referências sobre a urgência da criação da Barragem do Alqueva surgem há mais de meio século. No entanto, o empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva apenas ganhou forma em 1993 quando retomado o projecto. Em 2002, com o encerramento das comportas da barragem, Alqueva é actualmente uma realidade.

Passados praticamente 10 anos, revela-se pertinente levantar questões e conjecturar interpretações que nos permitam entender melhor as diversas dimensões que derivam do empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva: De que forma as comunidades do sul vivem esta nova paisagem? Quais as consequências na vida social e cultural das comunidades ribeirinhas? Permanências e transformações. Que expectativas para o futuro? Quais as memorias associadas ao Rio Guadiana? Que novos valores atribuem à terra e à água? Como é visto o Alqueva através dos olhares de fora, do “estrangeiro” e de quem nele se fixou?

Os pressupostos da pesquisa incidem sobre o uso de material visual na produção de conhecimento social e cultural, atenta às novas formas de expressão cultural e uso da cultura em contextos locais, possibilitando a reflexão em torno das questões de uma antropologia de urgência as­sumida nas formas narrativas de carácter audiovisual, do registo etnográfico.

Partindo da natureza construída das narrativas ribeirinhas, este projecto pretende estabelecer uma actualização das relações da antropologia com a imagem em torno das culturas rurais contemporâneas, permitindo a apreciação crítica da produção visual objectificada em “novos” contextos socioculturais.

Esta linha de investigação visa, por um lado, incrementar o Arquivo de Memórias do Museu da Luz através da produção de registos audiovisuais e textuais (depoimentos) sobre as comunidades e a nova paisagem, e por outro radiografar um processo e revalorizar culturas populares privilegiando o campo das práticas da cultura.

Identificação das problemáticas[1] |

Luz | A alienação de um lugar: rupturas e continuidades na nova Luz.

A construção da Barragem do Alqueva, sem dúvida a face mais visível de todo o Empreendimento, entre outros impactos, provocou a submersão total da aldeia da Luz.

A complexa operação de transição da velha para a nova aldeia traduziu-se num processo de mudança que paralelamente suscita um processo de adaptação a um novo território e, em última instância à construção de uma nova identidade. Os discursos produzidos aludem a uma mistificação do passado, a uma espécie de resistência cultural face às transformações, ao difícil desprendimento em relação aos elementos da herança cultural, às marcas e referências espaciais e simbólicas.

O confronto com as propriedades subjectivas do novo espaço, motivou um contínuo processo de negociação e apropriação face ao mesmo. Este é estabelecido através da gerência de continuidades, mas sobretudo legitimando e edificando rupturas nos modos de vida e práticas da cultura. Assistida por um modelo mental de uma comunidade na qual a diferenciação social se substancia na desigualdade material, a instabilidade das redes de proximidade e do microcosmos social foi desta forma acelerada.

Na nova Luz, a importação de hábitos e costumes constitui-se como uma prática descontínua que motiva uma reconfiguração ao nível do tecido social e das expressões culturais. Considerada por alguns habitantes como uma manifestação de um não-lugar, a aldeia é agora o reflexo da transformação da paisagem “desabitada”, desconstruindo as noções de lugar de pertença. A água viva desaparece e cede lugar a um enorme e estático lago de água. A ocupação do novo espaço implica naturalmente um processo de readaptação dos actores sociais. São estes indivíduos, enquanto elementos activos da unidade social, que concorrem para a produção sociocultural do novo espaço e consequentemente para a alienação em relação à aldeia velha.

O documento visual produzido apresenta-se assim como um retrato das formas de vida e da apropriação gradual e activa da nova aldeia da Luz, onde a aceitação face à mudança é agora evidente, concorrendo para uma dinâmica de desenvolvimento e para a (re)construção e afirmação da identidade local.

A alienação de um lugar.Rupturas e continuidades na “nova” Luz, 2011, 24’05’’, cor, 4:3, DV PAL

Realização, captação e edição de som e imagem | Pedro Grenha

Produção | EDIA, S.A / Museu da Luz

A alienação de um lugar. Rupturas e continuidades na “nova” Luz. from Pedro Grenha on Vimeo.

Estrela | Transformação da paisagem. Narrativas ribeirinhas sobre a nova geografia.

Nesta aldeia do subsistema do regolfo da barragem, os indivíduos partilham as suas expectativas de vida, o seu quotidiano, o seu imaginário. As memórias passadas fundem-se com projecções de esperança numa nova vida, através da aceitação do presente como testemunho do real.

Aqui, a unidade de paisagem apresenta-se claramente reconfigurada. A nova geografia, remete a Estrela para um lugar isolado, “uma península sem retorno”. Os discursos produzidos aludem a uma transformação que extravasa a noção espacial e estética para se situar na esfera do equilíbrio social. Na prática, os custos sociais implícitos a esta transformação revelam a desconstrução de todo um projecto, entendido pelos habitantes da Estrela como utópico. A ruptura dos usos sociais da água, a débil dinamização do sector agrícola e do potencial turístico traduzem-se no abandono das práticas e na consequente desertificação gradual da população.

O vídeo produzido neste contexto, para além de uma leitura actual sobre a perspectiva do desenvolvimento integrado, pretende ser um instrumento de interpretação e reflexão sobre a passagem do quadro teórico e conceptual a considerações práticas, susceptíveis de serem analisadas e revistas.

Transformação da paisagem. Narrativas ribeirinhas sobre a nova geografia, 2011,19’32’’, cor, 4:3, DV PAL

Realização, captação e edição de som e imagem | Pedro Grenha

Produção | EDIA, S.A / Museu da Luz

Transformação da paisagem. Narrativas ribeirinhas sobre a nova geografia. from Pedro Grenha on Vimeo.

Barragem do Alqueva | “Olhar de fora”: leituras sobre uma nova paisagem.

É a partir da Barragem do Alqueva que se desenvolve o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva, o maior e mais relevante projecto hidrológico a nível Nacional. Desde logo, e de certo modo, é este o rótulo que motiva a afluência massiva dos indivíduos. De várias proveniências, os viajantes deslocam-se até a barragem propositadamente para presenciar a estetização, a grandeza do edificado e, naturalmente, a beleza da paisagem “transformada”.

Lugar de fluxo de gentes, aqui surgem várias interpretações sobre a forma de entender e perspectivar este elemento. Lugar de reflexões, a barragem é para a maioria dos indivíduos a materialização do progresso, secundarizando todos os restantes impactos.

De uma maneira geral, a formulação de hipóteses com base em discursos modelados pela acção dos mais variados canais de reprodução da informação, remete para uma noção de barragem entendida como um instrumento de concretização, uma acção integrada de desenvolvimento, uma valorização para o país e para  Alentejo.

Construído a partir dos olhares de fora, este registo pretende assim fixar as leituras actuais sobre o complexo de Alqueva.

“Olhar de fora”. Leituras sobre uma nova paisagem,2011, 07’12’’, cor, 4:3, DV PAL

Realização, captação e edição de som e imagem | Pedro Grenha

Produção | EDIA, S.A / Museu da Luz

“Olhar de fora”. Leituras sobre uma nova paisagem. from Pedro Grenha on Vimeo.

Amieira | Processos de turistificação: as novas dinâmicas do turismo náutico.

A nova configuração geográfica da Amieira, enquanto aldeia ribeirinha do subsistema  de Alqueva, permitiu pensar a exploração do potencial turístico, na vertente do turismo náutico. Contrariando a actual estrutura do turismo no Alentejo, aqui emergem novas dinâmicas, directa ou indirectamente, relacionadas com o espelho de água. O valor paisagístico associado ao potencial das actividades náuticas, possibilita a ocorrência de sinergias entre estas e o tecido económico local numa perspectiva de desenvolvimento integrado. A afirmação da Amieira enquanto símbolo do turismo náutico advém do aproveitamento (quase) integral das potencialidades geradas pela albufeira, no qual a promoção de actividades no plano da água fomenta a integração vertical da restauração local no sector do turismo. No entanto, a par desta realidade figura um desfasamento em relação ao desenvolvimento geral da aldeia. O desenvolvimento, aqui perspectivado como a possibilidade de emprego, como forma de fixar as gentes ao lugar, não se reflecte na esfera global.

De uma maneira geral, apesar das novas dinâmicas geradas pelos emergentes processos de turistificação do Alqueva, a realidade actual da Amieira pauta-se pela desarticulação da estrutura social, onde o envelhecimento geral da população e o êxodo da população activa é emergente.

Processos de turistificação. As novas dinâmicas do turismo náutico, 2011, 14’22”, cor, 4:3, DV PAL

Realização, captação e edição de som e imagem | Pedro Grenha

Produção | EDIA, S.A / Museu da Luz

Processos de turistificação. As novas dinâmicas do turismo náutico from Pedro Grenha on Vimeo.

 


[1] A abordar por localidade. As problemáticas sugeridas apresentam noções implícitas à sua formulação. A fixação de memórias associadas ao Rio e a estruturação da paisagem são elementos que se revelam pertinentes para o entendimento das novas formas de vida e integração das comunidades e das aldeias do subsistema.

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